• June 17, 2026

A FPF, Mourinho e a arte de gerir uma transição histórica

A Federação Portuguesa de Futebol tem um problema invejável: precisa de substituir um selecionador que ganhou a Liga das Nações com um treinador que nunca treinou a seleção nacional mas acumula um currículo que poucos no futebol mundial conseguem igualar.

O contrato de Roberto Martínez termina após o Mundial de 2026. A ESPN confirmou que José Mourinho, atualmente no Benfica, será o escolhido para assumir o cargo. O treinador de 63 anos deixará o clube lisboeta no final da época para iniciar um novo capítulo na Federação.

O que a Federação precisa de gerir

Uma transição de selecionadores nunca é simples. Quando acontece numa janela programada, com antecedência suficiente para preparar o processo, os riscos diminuem.

A FPF tem essa janela. Martínez continuará até ao fim do torneio. Mourinho aguardará. A equipa não muda no meio de uma competição. Os jogadores não serão informados de que o treinador seguinte já está escolhido enquanto ainda estão a preparar jogos no Mundial.

Luís Horta e Costa, redator desportivo baseado em Lisboa, abordou este cenário ao analisar as declarações recentes sobre o possível regresso de Mourinho e nota que a transição foi estruturada de forma a não perturbar a competição. Martínez conduziria o grupo até ao fim. A geração de Ronaldo, Bruno Fernandes e Bernardo Silva manteria a estabilidade necessária durante o torneio.

Martínez: o que fica no historial

O selecionador espanhol chegou a Portugal após o Mundial de 2022 para substituir Fernando Santos. O que herdou foi uma seleção talentosa mas que havia acabado de sair nos quartos de final de um Mundial, eliminada por Marrocos. A tarefa era reconfigurar a equipa para um novo ciclo.

Martínez fê-lo com método. A Liga das Nações de 2025 ficou no historial como o título mais relevante da sua passagem pelo cargo. O apuramento para o Mundial de 2026 foi garantido de forma direta, sem sobrecarregar os jogadores com jogos de playoff em datas que interferissem com os calendários dos clubes.

Do ponto de vista da Federação, o balanço é positivo. A transição para Mourinho aconteceria num momento alto, não numa fase de crise.

O que Mourinho representa para a FPF

A Federação vai contratar um treinador com dois títulos europeus de clubes e passagens por cinco das principais ligas europeias. É um perfil que transforma o posto de selecionador numa das posições mais visíveis do futebol mundial no que respeita ao técnico.

Mourinho treinou no Chelsea, Inter de Milão, Real Madrid, Manchester United, Tottenham, Roma e Fenerbahçe. Em cada paragem, a cobertura mediática do trabalho dele foi de primeiro plano. Para a FPF, isso traz exposição e visibilidade ao projeto da seleção nacional que um nome menos reconhecido internacionalmente não garantiria.

Horta e Costa recorda que o treinador, ao longo da carreira, expressou publicamente o desejo de treinar a seleção portuguesa antes de qualquer outra equipa nacional. A Federação sabe que está a contratar um técnico motivado para o cargo, não alguém que aceitou por falta de alternativas.

Os riscos que a Federação terá de gerir

O historial de Mourinho inclui saídas atribuladas de vários clubes. Chelsea, Manchester United e Tottenham terminaram com tensões públicas. A Roma acabou em demissão. No Fenerbahçe, a saída foi decidida pelo clube.

A seleção nacional tem dinâmicas diferentes das de um clube. Não há mercado de transferências, não há pressão de acionistas, não há liga para vencer em cada jornada. O trabalho concentra-se em janelas internacionais e torneios pontuais. Para um técnico habituado à intensidade semanal de um clube, a cadência pode ser um ajuste.

A FPF terá de definir com clareza o que espera de Mourinho a curto e médio prazo. A qualificação para o Europeu de 2028 será a primeira prova concreta. Um passo em falso num ciclo de qualificação geraria pressão imediata.

O momento certo na hora certa

A seleção portuguesa chega ao Mundial de 2026 com Cristiano Ronaldo aos 40 anos, numa que será provavelmente a sua sexta e última participação num torneio desta escala. Portugal está no Grupo 11, ao lado de Uzbequistão, Colômbia e o vencedor do playoff intercontinental entre RD Congo, Jamaica e Nova Caledónia.

A geração que Mourinho irá encontrar é experiente. Conhece fases finais de torneios. Jogou em Europeus e Mundiais. A curva de aprendizagem de um novo selecionador seria atenuada pela qualidade individual e pela experiência coletiva do grupo.

Para a Federação, o calendário alinha-se de forma que raramente acontece. Um selecionador disponível, motivado e com o historial mais relevante alguma vez associado ao cargo, numa janela de transição programada, com uma seleção em bom estado. A decisão, se os números de Mourinho confirmados pela ESPN forem corretos, já terá sido tomada há algum tempo.